Material apresenta desde o início da Revolução de 1930 até o 10º ano de governo Vargas
O DNA do Trabalhismo e a coragem de Getúlio Vargas para refazer o Brasil é o que apresenta a sequência de cartilhas publicadas pelo Centro de Memória Trabalhista (CMT), da Fundação Leonel Brizola – Alberto Pasqualini (FLB-AP), nesta semana. São sete discursos do pai do Trabalhismo brasileiro, que compreendem do prelúdio da Revolução, em 1930, até o 10º ano de governo.
O material está disponível para download gratuito na Biblioteca Virtual da Fundação e oferece uma leitura histórica e política sobre a formação do Estado brasileiro, seus valores sociais e o projeto de país que o Trabalhismo defendeu.
A iniciativa marca um passo importante no resgate da memória trabalhista. Cada cartilha apresenta o discurso original de Vargas e uma contextualização histórica. Ao percorrer as sete publicações, o leitor acompanha o nascimento do Estado Social brasileiro — da denúncia das oligarquias da República Velha à consolidação das políticas públicas que estruturaram os direitos trabalhistas, a industrialização e a soberania nacional.
Mais que um mergulho no passado, as cartilhas convidam à reflexão sobre o presente. O projeto recupera as raízes de um pensamento político que compreendia o Estado como instrumento de justiça social, de valorização do trabalho e de proteção do povo. Esse ideal se vê ameaçado hoje pelo avanço do ultraliberalismo, pela precarização das relações de trabalho e pela ofensiva permanente contra a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT).
Em um país que volta a enfrentar desemprego, informalidade e a “uberização” da vida, a leitura desses discursos revela o quanto os desafios de 1930 continuam atuais. A crítica de Vargas à desigualdade, à corrupção e à dominação das elites ecoa no cenário de violência política e de ataques sistemáticos à democracia, às instituições e à Constituição.
Reunir a palavra de Getúlio Vargas é reafirmar o compromisso do Trabalhismo com o Brasil real: o país que produz, que trabalha e que sonha com uma sociedade mais justa. As sete cartilhas formam uma linha do tempo que vai do levante popular de 1930 à consolidação do Estado Nacional, passando pela construção das bases morais, sociais e econômicas de um projeto que uniu desenvolvimento e direitos.
O grito da Aliança Liberal: Vargas e o início da Revolução de 1930
Em 2 de janeiro de 1930, na Esplanada do Castelo, no Rio de Janeiro, Getúlio Vargas apresentou ao país o programa da Aliança Liberal. O discurso que inaugura a série de cartilhas é o ponto de partida da transformação política que derrubaria a República Velha. Ali, o então candidato à Presidência rompe com o domínio oligárquico e dá voz às classes populares, denunciando fraudes eleitorais, monopólios econômicos e a exclusão social.
“Vivemos num regime de insinceridade; o que se diz e apregoa não é o que se pensa e pratica. […] A campanha de reação liberal exprime uma vigorosa tentativa de renovação dos costumes políticos e de restauração das práticas da democracia, dentro da ordem e do regime”, rememora o documento.
“A Plataforma da Aliança Liberal” é, ao mesmo tempo, um manifesto e um projeto nacional. Vargas defende o voto secreto, a criação da Justiça Eleitoral e o fim do “caciquismo”. Reconhece a questão social como problema nacional e promete um Código do Trabalho que assegure férias, salário mínimo, previdência e proteção à mulher e ao menor. Fala em industrialização, diversificação produtiva, valorização do funcionalismo e moralização administrativa.
O texto é um marco inaugural do pensamento trabalhista: apresenta um Estado que se coloca ao lado do povo e do desenvolvimento, fundindo justiça social e soberania econômica. É a semente do trabalhismo que floresceria nos anos seguintes.
O brado de Porto Alegre: a contrarrevolução pela liberdade
No dia 4 de outubro de 1930, com a Revolução já deflagrada, Vargas se dirigiu ao povo gaúcho com o discurso “Rio Grande, de pé, pelo Brasil!”. O país vivia a crise mais aguda da República Velha, após as fraudes eleitorais que haviam garantido a vitória de Júlio Prestes. O assassinato de João Pessoa havia incendiado a revolta popular e precipitado o levante armado.
O tom da fala é de denúncia e convocação. Vargas recorda que buscou a via democrática e a legalidade, mas foi traído pelo governo federal. Ele acusa o regime de falsear a vontade popular e corromper a República. Diante da tirania, justifica a insurreição como dever patriótico.
Ao definir o movimento de 1930 como uma “contrarrevolução”, Vargas legitima a ação revolucionária como resposta à injustiça e à degradação moral do Estado. O discurso é o retrato do instante em que o político reformista se transforma no líder revolucionário, e o Rio Grande do Sul se afirma como bastião da legalidade e da reconstrução nacional.
“Estamos ante uma contrarrevolução para readquirir a liberdade, para restaurar a pureza do regime republicano, para a reconstrução nacional. Trata-se de um movimento generalizado, do povo fraternizando com a tropa, desde o Norte valoroso e esquecido dos governos até o Extremo Sul”, proferia Getúlio.
A fundação do novo Estado: moralidade pública, justiça social e trabalho
Três semanas depois da vitória da Revolução, em 3 de novembro de 1930, Getúlio Vargas tomou posse como chefe do Governo Provisório. No Palácio do Catete, proferiu o discurso que marcaria o fim da República Velha e o início do Estado moderno brasileiro.
A fala combina conciliação e firmeza. Vargas agradece às Forças Armadas e ao povo pela união cívica que permitiu uma transição sem violência e define o novo governo como instrumento de reconstrução moral e social. O discurso lista medidas que moldariam o país nas décadas seguintes: criação dos ministérios do Trabalho e da Instrução e Saúde Pública, reforma eleitoral com garantia do voto secreto, reorganização da Justiça e anistia geral.
Pela primeira vez, a “questão social” aparece como prioridade de governo — e não apenas como bandeira eleitoral. O novo Estado nasce comprometido com o trabalhador, com a moralidade administrativa e com a eficiência pública. É o momento em que a revolução se transforma em governo, e o discurso se converte em programa.
Dever da verdade e fim do favoritismo: a Revolução como obra de governo
Um ano após a vitória da Revolução, em 3 de novembro de 1931, Getúlio Vargas dirigiu-se novamente ao país para avaliar o primeiro ciclo do Governo Provisório. No “Manifesto à Nação”, o tom já não era o da insurgência, mas o da responsabilidade. Getúlio defende o prolongamento do governo revolucionário e apresenta um balanço do que fora herdado: um Estado desorganizado, finanças arruinadas e instituições corroídas pelo favoritismo.
A palavra de ordem agora é regeneração nacional. A Revolução, afirma Vargas, não se realizou apenas para trocar nomes, mas para substituir os métodos da velha política. A legitimidade do novo regime deve nascer da probidade e da eficiência — não apenas da forma jurídica. É o momento em que a revolução se transforma em ética administrativa e em moral pública.
O Manifesto traz um Vargas pedagógico e austero. Ele diz ao povo a verdade sobre a crise e defende medidas impopulares, mas necessárias. O objetivo é claro: reconstruir o Estado sobre bases sólidas, moralizadas e funcionais.
“A Revolução foi, sobretudo, um protesto fulminante contra tão deprimente estado de coisas… não terá cumprido a sua missão enquanto não substituir o velho arcabouço oligárquico por um regime sadio de justiça e moralidade administrativa”, afirmava Getúlio.
A fala é decisiva para o amadurecimento do projeto varguista. Ao deslocar o foco da tomada do poder para a obra de governo, Vargas inaugura uma visão moderna de Estado: o poder como responsabilidade, e a política como dever moral.
O ideal em marcha: o Estado social nasce do trabalho
Em 29 de outubro de 1932, no Palácio do Catete, Getúlio Vargas celebrou a aproximação entre o Governo Provisório e as classes trabalhadoras. O país ainda se recuperava da crise mundial e das tensões regionais provocadas pela Revolução Constitucionalista. O discurso às classes operárias marca o início da institucionalização da política social brasileira.
Vargas apresenta o trabalho como fundamento moral e econômico da nação. Defende que o Estado deve organizar o sistema produtivo, proteger o operário e equilibrar as forças entre capital e trabalho. O Ministério do Trabalho, criado dois anos antes, é exaltado como símbolo da Revolução em marcha — um instrumento de justiça social e de paz entre as classes.
No discurso, o presidente reconhece direitos até então inéditos: jornada de oito horas, férias remuneradas, proteção à mulher e ao menor, salário mínimo e seguro social. O texto também contém um apelo ético às elites: as classes abastadas têm deveres correspondentes às suas prerrogativas. A cooperação social passa a ser apresentada como o caminho para a harmonia e a estabilidade nacional.
“O individualismo excessivo, que caracterizou o século passado, precisava encontrar limite e corretivo na preocupação predominante do interesse social”, defendia Getúlio. E completava: “Faz-se mister […] reconhecerem que a essas prerrogativas correspondem deveres, convencendo-se de que todos quantos cooperam com o seu trabalho […] possuem também respeitáveis direitos ao bem-estar, à saúde e à previsão social”.
A cartilha mostra o nascimento do Estado social brasileiro. O trabalhador é valorizado como parte orgânica da estrutura nacional, e o Estado assume o papel de protetor e educador. É o momento em que o ideal trabalhista se transforma em política concreta — um ideal em marcha que nenhuma resistência poderia conter.
A Revolução se faz em atos: o legado político e moral de 1930
Quatro anos após o levante de 1930, Getúlio Vargas retornou a Porto Alegre como presidente constitucional. O discurso de 1934 é um dos mais longos e simbólicos de sua trajetória. Nele, o líder que iniciara a Revolução presta contas ao povo e celebra a maturidade institucional do novo Estado.
A fala é permeada por emoção e gratidão. Vargas exalta o heroísmo dos gaúchos e o papel do Rio Grande na libertação nacional. Mas também transforma a memória da Revolução em relatório de governo. O balanço é vasto: criação do Código Eleitoral de 1932, voto secreto e feminino, Justiça Eleitoral, convocação da Constituinte, modernização administrativa e reorganização das finanças.
O discurso projeta a Revolução como processo moral e pedagógico. A transformação não se mede apenas por conquistas materiais, mas pela formação cívica do povo e pela construção de um Estado forte e honesto. A ideia de revolução permanente se consolida: um movimento que continua se realizando através da administração pública e das reformas de Estado.
“Eis-me aqui, de retorno aos pagos nativos, volvidos quatro anos sobre a jornada memorável de 3 de outubro de 1930! […] Aqui estou, sem ira nem orgulho, para dizer-vos como cumpri o meu dever”, se prontifica Getúlio diante dos conterrâneos. “A semente que plantastes começa a produzir os seus primeiros frutos sazonados. […] Do Norte ao Sul, o Brasil se levanta, moral e materialmente, do torpor e do abatimento”, continuava o líder trabalhista.
É o ápice do ciclo revolucionário: a Revolução se faz em atos, e o Estado se torna o seu instrumento permanente.
Uma só bandeira: dez anos que fizeram o Brasil industrial e social
No dia 11 de novembro de 1940, durante jantar no restaurante do Aeroporto Santos Dumont, Vargas celebrou dez anos de governo. O discurso, conhecido como “Obra de Dez Anos”, é a síntese do ciclo iniciado em 1930 — a consagração da industrialização, da legislação social e do Estado Nacional.
O tom é o de um estadista que olha o passado como missão cumprida. Vargas defende a união entre capital e trabalho, o combate ao “parasita improdutivo” e o trabalho como “primeiro dever social”. Enumera conquistas materiais: ferrovias, rodovias, rotas aéreas, combate às secas, expansão da educação e da saúde, valorização da agricultura e início da siderurgia e da prospecção do petróleo.
A Constituição de 1937 e o Estado Novo são apresentados como desdobramento da Revolução de 1930. Vargas justifica a centralização política como meio de consolidar as reformas e garantir estabilidade num mundo em guerra. “O Estado Nacional surgiu da Constituição de 1937, consagrando os princípios básicos da Revolução de 1930, em forma adaptada à sociedade civil brasileira”, explicava o chefe da nação.
O discurso transforma a década de 1930 em Era fundacional do Brasil moderno. Industrialização e justiça social passam a ser os dois pilares de uma mesma política de soberania. A ideia de “uma só bandeira” resume o espírito do Trabalhismo nascente: unir a nação sob o símbolo do trabalho e da independência nacional.
Serviço
Série: Cartilhas CMT — Discursos de Getúlio Vargas (1930–1940)
Organização: Centro de Memória Trabalhista (CMT), da Fundação Leonel Brizola – Alberto Pasqualini (FLB-AP)
Disponível em: Biblioteca Virtual da FLB-AP
Acesso e download gratuitos.
Fonte: PDT Nacional





