Entrevista realizada e preservada pelo CMT reúne as memórias de Maneca sobre sua vida e a formação do PDT
Manoel Dias morreu na noite de sábado, 22 de agosto. Fundador e secretário-geral nacional do PDT, presidente da Fundação Leonel Brizola – Alberto Pasqualini (FLB-AP) e ex-ministro do Trabalho e Emprego, Maneca dedicou mais de seis décadas à vida pública. Parte fundamental dessa trajetória permanece registrada em sua própria voz.
Em 2023, ele concedeu uma entrevista ao Centro de Memória Trabalhista (CMT) para a série *Trabalhismo na História*. Diante das câmeras, percorreu a infância em Criciúma, o início da militância, os mandatos interrompidos pela ditadura, a reorganização do Trabalhismo e a criação do PDT. Também falou sobre as ideias e os personagens que orientaram sua caminhada.
O tempo deu outro lugar àquelas imagens. O depoimento de um dirigente que participou de momentos decisivos da política brasileira tornou-se um documento para as novas gerações. Nele, Manoel Dias conta o que viveu, explica as escolhas que fez e apresenta o Trabalhismo a partir da experiência de quem ajudou a reconstruí-lo.
Clique aqui e assista à entrevista de Manoel Dias ao Centro de Memória Trabalhista.
Da região carbonífera à política
Maneca inicia o relato em Criciúma, no sul de Santa Catarina. A região era marcada pela mineração e pela presença dos trabalhadores na vida econômica e social. Foi nesse ambiente que ele conheceu de perto as desigualdades e começou a formar sua consciência política.
Ainda jovem, aproximou-se do antigo Partido Trabalhista Brasileiro (PTB). João Goulart e Leonel Brizola exerciam forte influência sobre sua geração. A defesa das Reformas de Base, da soberania nacional e dos direitos dos trabalhadores dava sentido à militância que Manoel começava a construir.
Em 1962, foi eleito vereador de Içara pelo PTB. O golpe de 1964 interrompeu o mandato. Maneca foi cassado e permaneceu preso por 11 meses. A violência do regime atravessou sua vida e definiu os anos seguintes.
Em 1965, participou da fundação do Movimento Democrático Brasileiro (MDB) em Santa Catarina. No ano seguinte, foi eleito deputado estadual. A nova passagem pelo Parlamento também seria interrompida. Em 1969, após o AI-5, teve o mandato cassado e os direitos políticos suspensos por dez anos.
Na entrevista, a ditadura não aparece como um capítulo distante. Manoel fala de uma experiência pessoal. A cassação, a prisão e o impedimento de exercer a política mostram o preço imposto a quem resistiu ao regime e permaneceu ligado ao Trabalhismo.
Durante o período de suspensão dos direitos políticos, concluiu o curso de Direito na Universidade Federal de Santa Catarina, em 1970, e passou a advogar em Criciúma. A atividade partidária continuou sob as restrições daquele tempo. Com a anistia, em 1979, mudou-se para Florianópolis e participou do esforço para reorganizar o antigo PTB.
A reconstrução do Trabalhismo
Manoel Dias acompanhou do Brasil o processo que levou ao Encontro de Lisboa, em 1979. Impedido pela ditadura de deixar o país, não esteve naquele encontro, que reuniu trabalhistas no exílio e aprovou a Carta de Lisboa. Sua atuação ocorreu dentro do Brasil, onde ajudou a preparar a reorganização partidária aberta pela anistia.
A disputa pela sigla PTB frustrou o primeiro plano. Em 1980, o registro ficou com o grupo de Ivete Vargas. A resposta foi a criação do Partido Democrático Trabalhista. Maneca esteve entre os fundadores da nova legenda e, ao lado de Brizola e de outras lideranças, participou da construção do partido ao qual permaneceria ligado até o fim da vida.
Esse período ocupa lugar central na entrevista. Manoel fala como testemunha da passagem entre a resistência à ditadura e a reconstrução democrática. Sua memória ajuda a compreender por que o PDT nasceu e quais compromissos orientaram seus fundadores. O partido deveria organizar os trabalhadores, defender a soberania nacional e transformar a democracia em instrumento de justiça social.
Ao recuperar essa história, Maneca também apresenta suas principais referências. Alberto Pasqualini surge como formulador do pensamento trabalhista. Jango representa o projeto das Reformas de Base interrompido pelo golpe. Brizola aparece como liderança da resistência e da reconstrução. Darcy Ribeiro é lembrado pela defesa da educação pública e pela experiência dos Centros Integrados de Educação Pública, os CIEPs.
Memória e formação política
A entrevista também revela uma preocupação constante de Manoel Dias: a formação de novos quadros. Para ele, um partido ideológico precisava conhecer suas raízes, estudar seus princípios e preparar a militância. A atividade eleitoral não bastava. Era necessário formar pessoas capazes de compreender o Brasil e agir para transformá-lo.
Essa convicção orientou sua atuação à frente da FLB-AP. Sob sua presidência, a Fundação ampliou iniciativas de formação, preservação documental e difusão do pensamento trabalhista. O CMT integra esse trabalho. Suas entrevistas, publicações e pesquisas registram experiências que poderiam desaparecer com o tempo.
A conversa gravada em 2023 demonstra a importância desse esforço. Manoel Dias ajudou a criar as condições para que o Trabalhismo preservasse a memória de seus dirigentes e militantes. Depois, colocou a própria trajetória à disposição do Centro de Memória.
Desde 22 de agosto, o registro adquiriu um significado definitivo. Maneca já não pode acrescentar um detalhe, corrigir uma data ou completar uma lembrança. Sua voz, no entanto, ficou preservada. Nela estão a formação política, as perseguições, a resistência e o trabalho de uma vida inteira.
Rever a entrevista é uma forma de conhecer Manoel Dias por meio do próprio Manoel Dias. Também é uma maneira de compreender o PDT pelas lembranças de quem participou de sua fundação e trabalhou por sua organização durante décadas.
O dirigente que dedicou parte da vida à preservação da história passou a integrar, com sua própria voz, o patrimônio que ajudou a construir.
Assista abaixo a entrevista completa.
Fonte: PDT Nacional







