Revista Brava Gente reconstrói a mobilização popular que garantiu a posse constitucional de João Goulart
Na manhã de 25 de agosto de 1961, Jânio Quadros participou das comemorações do Dia do Soldado, em Brasília. Poucas horas depois, comunicou que deixaria a Presidência da República. A carta-renúncia chegou à Câmara dos Deputados às 15h05. No fim da tarde, o presidente da Casa, Paschoal Ranieri Mazzilli, assumiu interinamente o governo.
João Goulart, então vice-presidente da República, estava em missão oficial na China e iniciou a viagem de volta. Pela Constituição, cabia ao vice-presidente assumir o cargo. Os ministros militares tentaram impedir o cumprimento da sucessão e o país entrou em uma crise que duraria 14 dias.
No Rio Grande do Sul, o governador Leonel Brizola reagiu. Passou a primeira madrugada ao telefone, conversou com autoridades civis e militares, buscou apoios e mobilizou a estrutura do estado. A Brigada Militar entrou em prontidão. O Palácio Piratini foi protegido, e a Praça da Matriz começou a receber manifestantes.
O cotidiano desse período é reconstituído pela revista *Brava Gente* na seção “Leonel Brizola, o brasileiro que derrotou o golpe em 14 dias”. Produzida pelo Centro de Memória Trabalhista (CMT) do PDT, a pesquisa consultou edições dos jornais Correio da Manhã, Última Hora e Tribuna da Imprensa preservadas pela Biblioteca Nacional. A sequência permite acompanhar o movimento desde a renúncia de Jânio até a posse de Jango, em 7 de setembro daquele ano.
Uma cidade em prontidão
No primeiro fim de semana da crise, Porto Alegre mudou de rotina. A Brigada Militar distribuiu sentinelas pelas torres da Catedral Metropolitana, pelo Tribunal de Justiça, pelo Teatro São Pedro e por outros pontos elevados da região central. Armas e munições foram levadas ao Piratini. Servidores, assessores, jornalistas e militares permaneceram no palácio.
O marechal Henrique Teixeira Lott divulgou um manifesto em defesa da posse de Jango. Em resposta, o Ministério da Guerra silenciou as emissoras que transmitiram o documento e as manifestações de Brizola. A Rádio Guaíba, que não havia participado das primeiras transmissões, continuou no ar.
Brizola requisitou os equipamentos da emissora e instalou uma estrutura de transmissão nos porões do Piratini. Dali, passou a falar diretamente ao país. “Botei os pulmões para fora; botei o coração para fora”, recordou anos depois. Nascia a Rede da Legalidade, que reuniu emissoras no Brasil e no exterior e manteve uma programação de 24 horas.
O rádio orientava a população e informava sobre o avanço da crise. Em um dos pronunciamentos reproduzidos pela Brava Gente, Brizola pediu o fechamento das escolas de Porto Alegre e recomendou que as crianças permanecessem com os pais. As repartições estaduais deveriam funcionar normalmente. O governo buscava organizar a resistência sem permitir que os serviços públicos entrassem em colapso.
Dentro do palácio, a tensão aumentava. A família de Brizola permaneceu no prédio, enquanto contingentes da Brigada Militar protegiam o local. Jornalistas se recusavam a sair e pediam armas para atuar como voluntários. Uma rede de radioamadores captava comunicações militares, mensagens codificadas e informações transmitidas por teletipos.
Na segunda-feira, 28 de agosto, chegou a ordem para deter a ação de Brizola e atacar o Palácio Piratini, com bombardeio aéreo, se necessário. O governador denunciou a ameaça pelo rádio. Diante da possibilidade de ataque, chamou a população para a frente do palácio e anunciou que permaneceria no local: “Aqui resistiremos até o fim”, afirmou.
Na Base Aérea de Canoas, sargentos e suboficiais impediram a decolagem dos aviões que poderiam participar do bombardeio. Peças foram retiradas, e pneus, esvaziados. No mesmo dia, o general José Machado Lopes, comandante do III Exército, reuniu-se com Brizola e aderiu à defesa da Constituição. A decisão alterou a correlação de forças e ampliou a proteção militar da resistência.
A resistência ganha as ruas
Enquanto o impasse continuava em Brasília, Porto Alegre recebia novos grupos. Trabalhadores, estudantes e famílias inteiras ocupavam a Praça da Matriz, e muitas das milhares de pessoas ali agrupadas se apresentaram ao Comitê Central de Resistência Democrática. Engrossando as trincheiras legalistas, a União Nacional dos Estudantes (UNE) transferiu seu comando para a capital gaúcha.
Quanto mais o povo se envolvia na luta em defesa da Constituição, mais a Rede da Legalidade amplificava a ligação entre o palácio, as ruas e o restante do país. Brizola conseguira condensar toda a vontade popular em sua empreitada de garantia constitucional, restringindo a possibilidade de sucesso do golpe.
A mobilização também procurava manter a economia em funcionamento. A revista registra que o governo voltou a emitir títulos públicos estaduais conhecidos como “brizoletas”, que tinham garantia do Tesouro do Estado e circulavam como moeda. A medida ajudava a preservar o abastecimento e a rotina da população durante a crise.
Obrigado a pousar em Montevidéu, Jango recebeu a visita de Tancredo Neves e Hugo de Faria, no dia 31 de agosto. Os parlamentares brasileiros foram ao Uruguai para apresentar a proposta parlamentarista articulada no Congresso Nacional ao vice-presidente. Goulart queria evitar que o país entrasse em guerra civil e ágil com cautela, aceitando a proposta. Brizola foi contra a decisão.
Na noite de 1º de setembro, quando o avião de Jango pousou em Porto Alegre. os arredores do Piratini estavam apinhados de gente em vigília. No dia seguinte, o Congresso aprovou a emenda constitucional e ficou instituído o parlamentarismo no Brasil.
A Praça da Matriz permaneceu ocupada nos dias subsequentes ao retorno do presidente. A viagem de Jango a Brasília foi adiada diante do risco de uma ação militar contra o avião presidencial. Somente em 5 de setembro ele deixou Porto Alegre, desembarcando algumas horas depois na capital federal sob forte esquema de segurança.
Às 15h30 de 7 de setembro de 1961, João Goulart tomou posse como Presidente da República. O presidencialismo seria restabelecido pelo voto popular no plebiscito de 1963.
A reconstituição publicada pela Brava Gente mostra como a defesa da ordem constitucional ocupou cada espaço da vida cotidiana. Durante 14 dias, a população acompanhou o rádio, manteve a praça ocupada, organizou comitês, protegeu prédios públicos e sustentou a resistência. Militares legalistas recusaram ordens que poderiam provocar uma guerra civil. Sob a liderança de Brizola, Porto Alegre tornou-se o centro de uma mobilização nacional.
Neste 25 de agosto, quando a Campanha da Legalidade completa 65 anos, a data integra o calendário oficial brasileiro como o Dia da Legalidade. A edição especial da revista Brava Gente está disponível gratuitamente na Biblioteca Digital da FLB-AP. A publicação reúne a cronologia completa, documentos históricos, depoimentos, imagens e perfis dos personagens que participaram daqueles dias.
Fonte: PDT Nacional







