CMT publica discurso de posse do educador na Academia, de 1993
O Centro de Memória Trabalhista (CMT) do PDT apresenta uma nova edição da série Grandes Discursos Trabalhistas, dedicada ao pronunciamento de Darcy Ribeiro ao tomar posse na Academia Brasileira de Letras (ABL), em 15 de abril de 1993. Entre memórias pessoais, reflexões sobre a formação do povo brasileiro e a defesa de um projeto nacional, o discurso aproxima duas dimensões de sua trajetória: compreender o Brasil e trabalhar para transformá-lo.
Na continuidade das publicações que recuperam a palavra de grandes personalidades do trabalhismo, a cartilha reúne uma apresentação e a íntegra do pronunciamento. Volume 43 das Cartilhas Trabalhistas, a publicação oferece a estudantes, pesquisadores e militantes uma fonte para conhecer o pensamento do antropólogo, educador, escritor e homem público.
Ao assumir a Cadeira nº 11, sucedendo a Deolindo Couto, Darcy combina o rito de homenagem aos antecessores com sua conhecida irreverência. Imagina os futuros acadêmicos que recordarão seu nome e brinca com a promessa de imortalidade, antes de convocar a inteligência brasileira a pensar os caminhos do país.
A reflexão parte das matrizes indígenas, africanas e europeias que constituíram nossa sociedade e se volta às possibilidades de uma civilização autônoma, mestiça e solidária. Para Darcy, a formação de uma nação deveria encontrar seu sentido na capacidade de construir um futuro em benefício do próprio povo:
“Muito mais, porém, é o que cumpre fazer para que, afinal, os brasileiros alcancem a condição de povo para si, a fim de que o esforço ingente, de cinco séculos de trabalho e sofrimento, resulte numa sociedade livre, soberana, feliz e próspera”.
Essa confiança no Brasil convive com o reconhecimento das violências de sua formação. Darcy denuncia o desgaste humano produzido ao longo dos séculos, reconhece a persistência do preconceito racial e afirma o direito dos povos indígenas a seus territórios e à continuidade de suas culturas. A solidariedade aparece como uma tarefa a realizar.
A educação ocupa um lugar decisivo nesse projeto. Ao discutir a necessidade de dominar o desenvolvimento científico e tecnológico, o educador vincula a superação da dependência nacional à transformação das escolas e ao acesso de todas as crianças ao ensino:
“Este repto civilizacional desafia nossos estadistas a formular um projeto nacional de desenvolvimento para nos livrar do que seria uma nova condenação ao atraso. O mesmo repto se coloca, também, a nossos educadores, chamados, por sua vez, a unir seus esforços para superar o precaríssimo sistema educacional que temos, a começar pela escolarização de todas as crianças, a fim de estancar a produção de mais analfabetos”.
O compromisso com essas mudanças atravessa também o balanço pessoal apresentado aos acadêmicos. Ao recordar a prisão, o exílio e as dores que marcaram sua vida, Darcy se reconhece como um “híbrido de intelectual e fazedor”, movido pela vontade de compreender e pelo gosto de agir. Sua obra ganha forma tanto nas páginas escritas quanto nas instituições e iniciativas às quais se dedicou:
“Obras, escritos, cargos, fiz, tentei e exerci muitos. Nisto gastei minha vida. Uns poucos deles ficaram com minha marca nos mundos por que passei, enquanto passava: um sambódromo, um parque indígena, museus, muitas bibliotecas, demasiados ensaios, quatro romances, muitíssimas escolas, algumas universidades. Não é pouco, quisera mais. Sempre quero mais. Muito mais”.
Nesse inventário, as realizações convivem com a insatisfação de quem desejava ir além. Ao reconhecer os fracassos nas tentativas de proteger os indígenas, escolarizar os brasileiros e reformar o país, Darcy reafirma o valor de ter escolhido suas causas e lutado por elas. É dessa relação entre pensamento e ação que emerge a força do pronunciamento.
Ao recuperar o discurso, o CMT amplia o acesso à memória trabalhista e oferece um convite à leitura e à formação política. O documento permite acompanhar, na própria voz de Darcy, um projeto de país que une conhecimento, soberania e dignidade para sua população, condensado em uma passagem de forte sentido coletivo: “O Brasil é nossa causa. Nossa tarefa. Nossa missão”.
O acervo de publicações do CMT, incluindo o discurso de Darcy abordado neste texto, pode ser consultado na Biblioteca Digital da Fundação Leonel Brizola – Alberto Pasqualini (FLB-AP).
Fonte: PDT Nacional







