Wellington Penalva
03/05/2026
Vereador do PDT em Lorena e presidente nacional do Movimento Indígena do partido defende educação, cultura e política como caminhos para o país reconhecer suas raízes
Daniel Munduruku levou ao centro do Roda Viva uma defesa firme da presença indígena nos espaços públicos, culturais e políticos do Brasil. Escritor, professor, intelectual do povo Munduruku, vereador do PDT em Lorena (SP) e presidente nacional do Movimento Indígena do partido, ele participou do programa da TV Cultura em uma edição dedicada aos povos originários.
Na entrevista, Daniel falou sobre literatura, educação, identidade e política institucional. Mas a ideia central foi uma só: os povos indígenas não pertencem ao passado. Estão no presente, disputam o futuro e têm contribuição decisiva para que o país repense sua própria formação.
Ao comentar sua presença na Academia Paulista de Letras e em outros espaços historicamente negados aos povos originários, Daniel afirmou que essa ocupação faz parte de um processo de reparação histórica.
“Nós tivemos ausentes desses espaços, não por vontade nossa, não por incompetência nossa, mas por uma narração de uma história que nos excluiu dela o tempo todo”, disse.
Para ele, a Constituição de 1988 abriu um novo momento para os povos indígenas no Brasil. A partir dali, foi possível mostrar ao país a competência acumulada por esses povos ao longo da história.
“Ocupar esses espaços […] faz com que a gente possa contribuir de uma forma muito mais qualificada para que o Brasil repense sua própria identidade”, declarou.
A fala dialoga com a trajetória do PDT. Nos anos 1980, o partido levou Mário Juruna, liderança Xavante, ao Congresso Nacional. Juruna rompeu o silêncio imposto aos povos originários e marcou a política brasileira ao cobrar, com seu gravador, as promessas não cumpridas pelas autoridades.
Décadas depois, Daniel Munduruku representa outra etapa dessa caminhada. Sua ferramenta central é a palavra. A palavra escrita, falada, pedagógica e política.
Literatura, educação e pertencimento
Daniel não separa literatura e militância. No Roda Viva, afirmou que a escrita se tornou seu modo de preservar a memória de seu povo e enfrentar os estereótipos construídos sobre os indígenas no Brasil. “Eu considero que a literatura é a minha forma de fazer política. É a minha forma de fazer resistência”, afirmou.
Essa resistência também aparece em sua trajetória pessoal. Daniel contou que, ainda criança, foi chamado de “índio” na escola como apelido. Aos poucos, percebeu que a palavra carregava uma negação de sua identidade. Foi o avô Apolinário quem o ajudou a reconstruir esse pertencimento “Eu não era o que elas diziam que eu era, eu era munduruku”, lembrou.
Na educação, Daniel tratou da Lei 11.645/08, que tornou obrigatório o ensino da história e da cultura afro-brasileira e indígena nas escolas. Para ele, a medida rompeu, ainda que parcialmente, com a versão única da história contada pelo colonizador.
“Ele faz uma pequena revolução, porque ele propõe que essa mesma leitura linear, ela faça uma curva”, declarou.
A curva mencionada por Daniel é a abertura da escola para outras narrativas. A história do Brasil, antes ensinada de forma colonial, passou a ter que incorporar também as experiências dos povos negros e indígenas. Ainda assim, ele reconheceu que a lei enfrenta limites.
“Uma lei não resolve, porque nós temos um racismo estrutural que vem delineando a nossa sociedade desde sempre”, afirmou.
Esse ponto tem força especial para o PDT. A educação sempre foi uma das bases do Trabalhismo brasileiro. Com Brizola e Darcy Ribeiro, o partido defendeu uma escola pública capaz de formar cidadania, identidade e emancipação. A fala de Daniel atualiza essa tradição ao mostrar que não há educação libertadora sem a presença real dos povos originários na narrativa nacional.
Ao falar sobre política institucional, Daniel lembrou que os povos indígenas sempre fizeram política. A novidade está na presença crescente desses povos nos espaços formais do Estado, nos parlamentos, nos governos e nos partidos. “Políticos sempre fomos”, afirmou. “E resistimos exatamente por sermos políticos também”.
Como vereador do PDT em Lorena e presidente nacional do Movimento Indígena do partido, Daniel atua em uma fase em que os povos originários disputam não apenas o direito de existir, mas também o direito de formular projetos para o Brasil.
Fonte: PDT Nacional







