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Câmara de Curitiba (PR) aprova Lei Bárbara Mattos sobre insuficiência istmo-cervical

Condição pode gerar parto prematuro e morte fetal; informação pode salvar vidas

A Câmara Municipal de Curitiba aprovou por unanimidade nesta segunda-feira (6) o Projeto de Lei Bárbara Mattos, de autoria vereadora Laís Leão que torna 27 de maio o Dia Municipal de Conscientização sobre a insuficiência istmo-cervical (IIC).

O PL  busca divulgar informações sobre a condição, muitas vezes silenciosa, que acomete muitas mulheres e pode provocar partos prematuros e morte fetal. O texto segue para sanção e entra em vigor assim que publicado no Diário Oficial do Município.

A insuficiência faz com que o colo do útero não consiga sustentar o peso do bebê e dilate (abra) antes do tempo, normalmente no segundo trimestre de gestação. A dilatação costuma ser indolor, fazendo com que muitas mulheres só identifiquem a condição após perderem o bebê.

“É um projeto que busca realmente valorizar essas famílias que estão começando e acolher especialmente a dor dessas mulheres, a dor dessas mães, que muitas vezes perdem uma gestação, perdem um filho sem nem saber o que está acontecendo e demoram duas, três gestações para descobrir o que está acontecendo e resolver uma questão que seria super prevenível com um procedimento bastante simples que é a cerclagem”, afirmou Laís Leão ao agradecer a aprovação da proposta.

A ideia do projeto de lei surgiu após a curitibana Gabriella Cogo Nickel contar sua história ao mandato. No dia 27 de maio de 2023, a servidora pública teve um parto prematuro na 20ª semana de gestação. A filha, Bárbara, nasceu sem vida e só depois Gabriella descobriu a insuficiência istmo-cervical.

“A gente não tinha conhecimento disso [da insuficiência], nem o exame tinha apontado isso, e a explicação que a gente teve veio após a perda… É muito duro, solitário e amargo você ter que perder um filho para você ter o diagnóstico de uma coisa que poderia ter sido evitada. A gente fala sobre pré-natal, fala sobre trombofilia, fala sobre diabetes gestacional, sobre pré-eclâmpsia, mas eu nunca tinha ouvido falar sobre insuficiência cervical, nunca vi nenhum folder sobre isso num posto de saúde”, relata Gabriella.

De acordo com a servidora pública e professora, muitas mulheres com quem conversou – ela própria incluída – nunca tinham ouvido falar sobre ou tinham sido orientadas sobre a IIC, seja no sistema público ou particular de saúde.

Condição silenciosa; efeito devastador

Gestantes com a insuficiência podem não ter sintomas, ou apresentar sinais leves como pressão pélvica, contrações de Braxton-Hicks, cólicas ou até dores nas costas. Quando devidamente realizados, o exame físico e a ultrassonografia podem ajudar no diagnóstico.

Ainda que pouco conhecida pela população, estudos científicos publicados pela National Library of Medicine afirmam que a IIC está entre os principais fatores relacionados à prematuridade e ao abortamento, sendo responsável por 16% a 20% das perdas gestacionais ocorridas no segundo trimestre de gestação. Esses estudos mostram que cerca de 8% das mulheres com histórico de abortos espontâneos no primeiro trimestre são acometidas por essa fraqueza do colo do útero.

Em Curitiba, a Secretaria Municipal da Saúde registrou 12 óbitos perinatais relacionados à insuficiência istmo-cervical entre 2023 e 2024 na rede pública, segundo balanço divulgado em 2025. Porém, acredita-se que a condição enfrenta falta de diagnósticos e subnotificação, com mães que só começam a investigar a IIC após a segunda ou terceira perda gestacional, ampliando o sofrimento e sensação de desamparo das mulheres atingidas.

O que é a cerclagem?

Quando a insuficiência é identificada corretamente, é possível agir de forma preventiva, com mudanças no acompanhamento obstétrico e procedimentos como a cerclagem, que reforça o colo do útero para evitar o parto prematuro.

A Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia recomenda que, quando possível, o procedimento da cerclagem seja realizado feito entre a 12ª e a 16ª semana de gestação, após o ultrassom morfológico. Se não for feito nesse período, ela só pode ser feita até a 25ª semana. O diagnóstico correto, no tempo certo, pode ser a chance de salvar o bebê.

Já diagnosticada, Gabriella pôde ter uma nova gestação, desta vez com a realização da cerclagem. Hoje, ela pôde acompanhar a aprovação da Lei Bárbara Mattos com a filha Kiara, recém-nascida, nos braços.

“Se existe uma limonada a ser feita desse limão amargo que foi a perda da Bárbara que seja então para ser através dessa conscientização e que a gente possa fazer com que outras mães não passem o que eu passei, que outras famílias não passem o que a gente passou.”

Gabriele Costa Chagas, também servidora pública, foi diagnosticada com insuficiência istmo-cervical durante a gestação. Ela estava grávida de 22 semanas quando o ultrassom morfológico ajudou a identificar a condição.

“Eu passei por uma cerclagem de emergência e, com 28 semanas, o meu filho nasceu prematuro extremo e permaneceu 50 dias na UTI neonatal. Eu me preparei muito para essa gestação. Me preparei para várias intercorrências, como diabetes gestacional e pré-eclâmpsia, mas eu nunca tinha ouvido falar em insuficiência istmo-cervical”, conta Gabriele.

Prevenção e acolhimento

O Dia Municipal de Conscientização sobre a insuficiência istmo-cervical vai fomentar o debate, ampliar a rede de informação, fortalecer políticas públicas baseadas na escuta e na humanização da atenção à saúde reprodutiva, e contribuir para a formação de profissionais mais sensíveis às histórias das mulheres atendidas pelo SUS.

A escolha do dia 27 de maio é uma homenagem simbólica à memória de crianças como Bárbara Mattos e à coragem de mulheres como a mãe, Gabriella, que transformam seu luto em luta por políticas públicas mais justas.

Mais do que propor uma data no calendário, o projeto de lei de Laís Leão busca dar visibilidade a um luto pouco compreendido e frequentemente silenciado: o da mãe que perde seu bebê ainda no ventre.

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Fonte: PDT Nacional

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